Um tambor de metal, um baldinho de plástico, embalagens vazias de produtos de limpeza (tipo multiuso) e pedaços de tela de mosquiteiro inutilizadas. À primeira vista, sucata. Mas o material pode transformar-se em uma minifábrica de adubo orgânico, segundo o engenheiro agrônomo Celio Luís Franco de Almeida, de Mogi-Guaçu (SP). Ele e o ambientalista Antonio Barbosa Pereira, membro da Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Mojiguaçu (Aproma), desenvolveram o Biodecompositor Doméstico (Biolar), equipamento que transforma lixo orgânico em adubo sólido e líquido.
Segundo Almeida, trata-se de uma estrutura simples e barata, que pode ser construída em casa. Dentro de um tambor de metal – de 100 ou 200 litros – serão depositados restos de comida, alimentos estragados, cascas de frutas, legumes, ovos, sementes, pó de café, cinzas e filtros de cigarros, víceras e ossos de frangos e peixes, folhas de verduras, entre outros. Esses resíduos devem ser fragmentados ao máximo, para facilitar a decomposição.
Há dois tipos de Biolar: o fixo e o móvel. No primeiro, o tambor fica enterrado de 10 a 15 centímetros na terra. No fundo dele é colocada a tela de mosquiteiro, para o chorume produzido chegar ao solo sem que os resíduos sólidos contaminem o terreno.
Já no biodecompositor móvel, desenvolvido para casas que não possuem solo descoberto, o chorume fica armazenado em um fundo falso. Os equipamentos precisam funcionar em ambientes abertos, recebendo sol durante várias horas.
Sem cheiro – Ambos possuem tampa (um baldinho plástico adaptado) e válvulas de respiro, feitas com as embalagens de produtos de limpeza. Elas impedem a dissipação do mau cheiro, garante Almeida.
O engenheiro agrônomo sugere a colocação de uma camada de serragem na base do tambor, antes da primeira carga de lixo. Serve, para drenar o chorume, explica. A serragem, posta entre uma camada e outra de lixo, também facilita o processo de produção do adubo orgânico.
A dona de casa Maria Tereza Franco, de Mogi-Guaçu, foi uma das sete pessoas que se interessaram pelo Biolar e o instalaram em casa. Ela possui dois cães de estimação e diz que até as fezes dos animais vão para o tambor, instalado no jardim de sua residência. Quem vê fica surpreso: não solta cheiro e não dá trabalho nenhum, garante ela. O adubo fabricado é de excelente qualidade. Segundo os pesquisadores, o produto foi analisado no laboratório da Universidade Federal de São Carlos. Por enquanto, temos resultados do adubo sólido. O chorume ainda está sendo testado, informa Almeida.
Segundo ele, para o hábito da separação de lixo não ser interrompido, é aconselhável possuir dois equipamentos. Isso porque o adubo sólido só poderá ser retirado depois de dois meses da última deposição de lixo. Enquanto isso, o usuário tem outro equipamento. O ambientalista Teodoro Melo Siqueira possui três biodecompositores em casa. O Biolar é uma ótima opção para quem mora em fazendas, afirma.
Rendimento – Em residências com cinco pessoas, o Biolar com capacidade para 200 litros levará cerca de seis meses para atingir sua cota máxima. Neste período teremos colocado aproximadamente 500 litros de material orgânico, que vai se desidratando e se decompondo, restando de 100 a 115 quilos de adubo sólido, diz Almeida. No caso de adubo líquido, é possível retirar de seis a oito litros de chorume a cada 15 dias, depois do 30.º dia de deposição de resíduos orgânicos.
A idéia, que surgiu no fundo do quintal da casa de Antonio Pereira, não tem fins comerciais, segundo os autores da pesquisa. Eles se dispõem a dar palestras ou ensinar famílias a fabricar o seu próprio equipamento. Eu fazia como muita gente, jogava o lixo num sulco e punha terra em cima.
Quando perdi o terreno onde fazia isso, tentei colocar num tambor e, a partir daí, aperfeiçoamos a idéia, diz Pereira. O adubo serve para o jardim, vasos e hortas. O resto é contribuição com a natureza.
Benefício ecológico – A pesquisa mostra que destinar corretamente o lixo orgânico significa reduzir cerca de 90% do peso e dois terços do volume de resíduos transportados de uma residência ao aterro sanitário. São menos geradores de chorume e gases, significando, portanto, maior vida útil ao aterro, diz Almeida. Além disso, valoriza-se a separação de lixo reciclável – vidro, metal, papel e plástico.
Segundo levantamento feito pelos idealizadores do Biolar durante a pesquisa, uma residência com cinco pessoas produz uma tonelada e meia de lixo orgânico ao ano. Talvez pareça utopia, mas se cada um fizer sua parte, podemos melhorar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, ter um produto de qualidade, afirma o engenheiro agrônomo.
Fonte: Antonio Pereira, (19) 3891-1109; Célio de Almeida, (19) 3861-5584 – aproma@zipmail.com.br