Poucos minutos após o barco de 8 pés movido a motor de popa avançar da barragem da Penha, na Zona Leste, em direção ao centro, várias sensações começam a se suceder. Não é apenas triste e repugnante ver o Tietê de perto. É também vergonhoso, revoltante e, acima de tudo, desolador. Paira no ar um cheiro fétido de ocre, enquanto a água escura se agita, lambendo as margens de pedras. No mar de lixo espalhado há muitas garrafas PET, pneus, capacetes e alguns objetos maiores, como sofás e um aparelho de TV colocado em frente a uma banqueta improvisada nas redondezas da Ponte Júlio de Mesquita Neto, lembrando uma sala de estar pós-hecatombe atômica.
Apesar da proximidade, o tráfego pesado nas marginais parece uma miragem distante. O barulho infernal dos carros chega ali na forma de um pequeno burburinho sonoro, e a tranquilidade relativa só termina mesmo, de tempos em tempos, com a passagem de grandes barcaças. Elas carregam tratores que mergulham seus braços equipados com garras no fundo do rio, arrancando porções de lodo no trabalho de desassoreamento do leito para evitar enchentes no período das cheias. No último dia 12, no trecho de 24 quilômetros percorrido pela reportagem de VEJA SÃO PAULO, os efeitos da estiagem do inverno eram visíveis, com vários pontos intransitáveis devido ao baixo nível da corrente.